Um canto de esperança para a Arara azul por Sérgio Túlio Caldas. Publicado na "Terra" (Agosto 1998).



Depois de dez anos de luta, a bióloga Neiva Guedes começa a ver recompensados seus esforços para salvar a arara-azul, que esteve perto da extinção e agora volta a povoar os céus do Pantanal.

É impossível não se impressionar com o vôo em bando das araras-azuis. E é difícil não se encantar com a beleza rara destas aves de plumagem azul-cobalto que, ao contrário dos outros animais silvestres, não têm medo do homen e até gostam de se aproximar para fazer gracejos. E foi justamente por isso que elas acabaram chamando a atenção. Em outras palavras: eram fáceis de capturar e mais fáceis ainda de vender.

Só durante a décado de 80, estima-se que 10 mil dessas araras foram tiradas ilegalmente do Brasil - única país do mundo onde ainda vivem na natureza - e desembarcadas em cativeiros dos Estados Unidos, da Europa e do Japão. Naquela época, o valor dessa espécie chegou a ultrapassar os 30 mil dólares. Hoje, é ainda mais. O resultado é que a arara-azul corre perigo de extinção e, de acordo com os cálculos mais otimistas, elas não são mais de 3 mil, vivendo principalmente na região do Pantanal mato-grossense. Mas há uma esperença.

A arara-azul é bonita e dócil.
Por isso, fácil de capturar e vender.
Daí o risco de extinção

Ela chama-se Neiva Maria Robaldo Guedes, bióloga, 36 anos, nascida em Ponta Pora, no Mato Grosso do Sul, e conhecida pelos peões pantaneiros simplesmente como Neiva das Araras. Não fosse por ela, o futuro da arara-azul seria obscuro. A frente do Projeto Arara-Azul, que é mantido pela Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp) e por entidades ambientais, como a WWF, Neiva tem sua rotina ligada ao próprio ciclo de vida das araras. Todos os anos, de julho a março, época de acasalamento e reprodução das araras-azuis, ela quase não é vista em sua casa, em Campo Grande. Vive nas fazendas do Pantanal, seguindo as aves, procurando ovos, monitorando os ninhos e registrando tudo em planilhas - informações que estão servindo para traçar, pela primeira vez, o perfil de comportamento da arara-azul. Nos três meses do ano que sobram, ela divulga seu trabalho, analisa pesquisas e ainda faz visitas às fazendas onde há maior ocorrência da espécie.

A luta de Neiva pela preservação dessa ave começou há dez anos, quando a arara-azul acabara de entrar para a lista dos animais ameaçados de extinção. No início de suas pesquisas, ela conta que esbarrou numa grande dificuldade. "A arara-azul, para minha surpresa, nunca tinha sido objeto de pesquisa. E, por isso, alguma coisa precisava ser feita para que ela não tivesse o mesmo destino da ararinha-azul, espécie que hoje só tem um exemplar solto na natureza". E sem informações que permitissem reconstruir o passado das araras-azuis, ficou impossível saber sobre sua população original, embora não houvesse dúvidas de que eram abundantes. As que sobreviveram estão no Pará, no Amazonas e na região de confluência entre os Estados de Tocantins, Maranhão, Piauí e Bahia; além do Pantanal, onde se concentram cerca de 70% do total da população. Há indicações de que, no passado, viveu também na Bolívia e no Paraguai, onde, porém, já estão extintas.

A vida por um fio. No passado a modificação do meio ambiente pelos colonizadores foi um dos fatores que contribuíram para o declínio da espécie. Mas foi o comércio ilegal de aves que levou a arara-azul a figurar na lista dos animais em extinção. Hoje, além da rigorosa fiscalização policial, os próprios fazendeiros e peões da região do Pantanal, que antes capturavam as aves, se transformaram nos seus principais guardiões. Agora, orgulham-se em vigiá-las e relatar seus movimentos à pesquisadora.

Isso não quer dizer, no entanto, que a sobrevivência delas esteja garantida As araras-azuis são muito frágeis. Os pares são fiéis (só procuram outro parceiro quando um deles morre) e cada casal produz apenas um ou dois ovos por ano. Durante a estação reprodutiva, metade de todos os ovos costuma ser devorada por gambás, urubus e tucanos. Quando os filhotes nascem, até os 45 dias de vida ficam sujeitos a virar alimento de gavião. Há ainda outro problema. Como a fêmea bota um ovo hoje e outro daqui a cinco dias, o filhote mais novo nem sempre consegue competir pelo alimento com o mais velho, e também maior. Assim, acaba morrendo de fome nos primeiros dias.

Para incentivar esse processo reprodutivo tão delicado, Neiva está instalando ninhos artificiais no alto dos manduvis, a árvore preferida das araras-azuis para o acasalamento. É uma ajuda e tanto para as araras, que precisam disputar com outras aves as cavidades das árvores para acomodarem os ninhos. Quando as araras-azuis não conseguem um lugar onde botar seus ovos é uma perda enorme para o trabalho de sua preservação.

O esforço para salvar essa espécie é grande, mas vale a pena, entusiasma-se Neiva. "No ano passado, três araras-azuis nasceram em ninhos artificiais e alguns bandos já foram vistos em locais do Pantanal onde não costumavam aparecer. É um sinal de que estão aumentando, mesmo que timidamente". Mas é um bom sinal.

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